domingo, 26 de abril de 2009

Ópio

Qual foi a última vez que suspirou por alguém?
Que sentiu seu corpo inteiro a se arrepiar só de pronunciar um nome, lembrar de um sorriso ou de gesto?
Quantas vezes se perguntou “se não eu, quem vai fazer você feliz?”
Quantas vezes desejou uma pessoa mais do que tudo nesse mundo, oferecendo o mundo em troca dela?
Quantas vezes, platonicamente, se deu conta de que não podia mais viver sem ela, mesmo que em pensamento, sonho, delírio ou desejo?
Quantas vezes agradeceu por tê-la em sua vida, mesmo ela estando tão distante da sua?
Quantas vezes, sufocado, fumou ópio para sarar a dor?

"Os que amam assim passam Agosto esperando Setembro".

E Abril ainda está no final...

terça-feira, 14 de abril de 2009

Vazio

Tendo o homem como casca de uma substância fluídica responsável por todas nossas ações e pensamentos, podemos pensar que é nessa mesma substância que estão todos os alelos responsáveis por nossos sentimentos e condutas como ser humano. É na alma que estão as lacunas e respostas de nossas vidas. Mais precisamente nas lacunas, porque é no espaço que a vida acontece.
Assim como o divino, também é no vazio que nos encontramos. É no vazio que há espaço, é no vazio que o outro chega. É no vazio que a gente acha.
Desejar o vazio não é desejar estar só, desejar o vazio é não desejar. É não desejar quem a gente não quer, mas que a boa mentira contada por nós mesmos nos fez acreditar que era pra ser. Decididamente não era. Porque se pesa é porque ocupa e se ocupa é porque te rouba os espaços. E os espaços têm sempre de estarem livres.
É não desejar aquele cara que não sei por que te rouba o sonho, o suspiro, o sorriso escondido. Não desejar porque ele não olha pra você ou porque olha, isso não importa. O que importa é que não dá. Desejar te roubará o tempo, a energia e os segundos. E o desejo faz trair. E trair não é legal, você sabe.
É não desejar a moça bonita que viu na rua, porque ninguém vive só de desejos. Precisamos ter, tocar, possuir. Deseje até o limite da fantasia e se não alcançar mude de desejo. Porque desejar muito é ficar sem. É ter noites em claro sonhando com momentos e pessoas que não virão. E se desejar muito sem ter, acabará afogado no próprio líquido.
É não desejar resolver os problemas do mundo sozinho, você não está sozinho nele. Fique feliz se conseguir mudar e salvar ao menos sua vida.
Desejar o vazio é aceitar com resignação os espaços que nos são dados. É entender que ter tudo não significa ser afortunado, ter mais do que podemos gastar, sentir mais do que podemos amar, ser mais do que podemos agüentar. O vazio nos eleva a mais alta condição de preenchimento. Quem está completo cabe dentro de si mesmo, não precisa ocupar espaço no outro. Mesmo porque ocupar incomoda, atrapalha, tira, diminui. E para preencher, a soma tem que dar positiva no final. Nos juntamos para sermos dois e não para sermos um. Porque se isso acontecer alguém terá que ser carregado. E pior do que não enxergar o próprio espaço é tirar o do outro.
A mulher quando deseja ser amada (e ela deseja sempre) ela deseja um espaço na vida de alguém. Deseja uma foto no porta-retrato na sala de estar, deseja o nome nos favoritos. Mas ela esquece que o único lugar em que será eterna não ocupa espaço, não precisa de papel, de data, de medida, de sorrisos forçados e lembranças que já não existem mais. Se ela insistir em ocupar um espaço, um dia perderá o mesmo para dar lugar à outra. Porque os espaços são limitados e se você der um pedacinho pra cada uma, uma hora vai faltar e você terá que descartar um para dar lugar a outro. Não, guarde-a no vazio, o nada não pode ser jogado fora.
Se entendermos a imensidão do vazio que existe dentro de cada um de nós e que é nele que guardamos todo o eu, o ela e o ele que fazem parte de nossas vidas, entenderemos que espaço é coisa do homem. Somos feitos da eternidade! E assim como a substância que ocupa nosso corpo um dia também o deixará vazio, o amor também não pode ocupar a vida de alguém.
Porque o amor quando é amor não ocupa, ele vibra! Salta dos olhos e mergulha na imensidão vazia do outro. Ele não pode ver, mas pode sentir. Ele vê que de alguma forma está ali dentro, mas ao mesmo tempo não ocupa espaço algum. Ele é tão leve que poderia o acompanhar pela eternidade maravilhosamente bem.
Porque o amor é assim, ele nasce do nada e vive do nada. Preenche o vazio e desocupa o espaço.